Nessa conversa com a diretora executiva do Instituto INCORES, Tanya Andrade, ficamos sabendo um pouco mais sobre a iniciativa que está ajudando jovens em situação de vulnerabilidade social e se inserirem no mercado formal de trabalho e darem um novo rumo às suas vidas. Tanya ainda falou sobre as vantagens sociais e econômicas para as empresas que apóiam esses jovens e os planos de expandir a atuação para outros estados do Brasil.
Portal EcoDesenvolvimento: O que é o Instituto INCORES e quais serviços ele oferece à sociedade?
Tanya Andrade: O Instituto foi criado a partir de um programa que a gente tinha de empregabilidade e tecnologia para jovens de 14 a 24 anos. Como os resultados eram bons, a gente fundou o INCORES, que é uma associação privada, sem fins lucrativos, e que presta serviços na área de educação, buscando melhorar a qualidade de vida de pessoas em situação de desvantagem social. Nosso principal programa é de jovens aprendizes, credenciado pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) como instituição formadora. Então a gente faz uma qualificação formadora de jovens para inseri-los no mercado de trabalho, contando com a parceria de algumas empresas.
De que forma é feita essa capacitação?
Os jovens recebem 460 horas de formação ao longo de dois anos, além da parte prática, em que eles vão para dentro das empresas. A formação é realizada em laboratórios de informática (espalhados por diversos centros em Salvador, Camaçari e região metropolitana) e envolve questões de empregabilidade, cidadania, comunicação para o ambiente de trabalho, tudo que vai deixá-lo mais preparado para ter uma postura profissional de como se comportar nesse espaço, além das funções essenciais para que ele possa desenvolver o trabalho com orientação.
Geralmente são jovens de primeiro emprego, que vêm de escolas públicas, de famílias de baixa renda. Então, estamos criando uma oportunidade para esses jovens, que geralmente vão para o mercado informal, ingressarem no mercado formal e deixarem de constituir aquela "massa cinzenta", como a gente chama os jovens que não estão dento do sistema. A qualificação inicial é de 160 horas nos laboratórios de informática, antes de ele ir para a empresa. Depois, ele passa para a parte prática, que é feita quatro vezes na semana, mais uma vez por semana de teórica. Então o jovem já é contratado à medida que ele segue na formação, passa a receber salário, vale transporte, carteira assinada, e todos os benefícios que a empresa der.
Quando e como surgiu a organização?
Nossa equipe trabalhou em um programa chamado Enter Jovem: Empregabilidade & Tecnologia dentro de uma organização americana. Há sete anos a gente implantava esse programa em três estados do Brasil com recursos do governo americano. Com o final do projeto, a gente viu uma oportunidade e uma carência, e não queríamos que os jovens deixassem de ser atendidos. Então nos reunimos e criamos o INCORES, que é uma entidade completamente nacional, financiada com recursos de empresas brasileiras.
O que é e como funciona o Mentoring e o Coaching?
O Mentoring é uma prática muito comum nos Estados Unidos onde a gente orienta os jovens para que eles saibam conviver com as dificuldades que estão tendo no ambiente de trabalho. É como uma tutoria. Porque muitos jovens deixam o ambiente de trabalho quando encontram uma dificuldade, como não se dar bem com um colega e achar que todos ali devam ser seus amigos. Então ele precisa de um apoio para superar essa dificuldade e continuar no trabalho. O Mentoring também serve para auxiliar ele, quando estiver na prática, a aproveitar esse tempo para conhecer mais, aprender e se desenvolver profissionalmente para que ele não fique lá apenas cumprindo ordens e tarefas.
Já o Coaching é aplicado no final do programa, quando surge um desafio muito grande e o jovem de pergunta "e agora, o que vou fazer?". Então nós reservamos um período para fazer o Coaching e auxiliar ele nessa transição. Ou ele vai deixar de ser um aprendiz e passar a ser um funcionário da empresa, ou vai ter que buscar uma nova opção de trabalho. Então a gente aproveita esse momento para fazer com ele um novo plano de carreira, e também para que ele compreenda essa transição, que ele agora passa a ter responsabilidade dentro do mercado de trabalho. Todo esse processo a gente desenhou com base em experiências anteriores, que já foram testadas aqui e em outros estados, e que foram adaptadas para o nosso contexto e realidade.
Essas empresas para onde esses jovens vão trabalhar são cadastradas na INCORES?
Sim, elas entram em contato com a gente e assinam um contrato antes mesmo da seleção do jovem. Então, quando ela acontece, já existe a vaga em uma determinada empresa. É como se fosse uma triangulação: tem o jovem aprendiz, a empresa, e a instituição formadora, que somos nós.
Quais são as vantagens para as empresas de fazer parte de um programa como o oferecido pela INCORES?
Em termos de responsabilidade social, você está formando mão-de-obra para aquele segmento. E tanto para o mercado presente, quanto para o futuro, existe uma escassez muito grande de mão-de-obra qualificada. Além disso, há o incentivo em termo de redução dos encargos. O FGTS é reduzido de 8% para 2% e não há multa na rescisão do contrato do aprendiz.
Como adolescentes e empresas interessadas no projeto podem participar?
Hoje nós temos o site www.incores.org.br, onde o jovem pode se cadastrar e preencher o currículo, que vai para o nosso banco de dados. Por incrível que pareça, nós estamos buscando jovens porque temos uma carência deles. Já as empresas podem entrar pelo site e solicitar uma reunião ou o contato, ou pode ligar para o escritório no telefone (71) 3321-7668 e conversar com a nossa gerente de relações institucionais, Edinéia Dourado.
Quantos jovens já passaram pelo instituto e quantos já estão colocados no mercado de trabalho?
O instituto foi criado em julho de 2010, e nesse primeiro ano já temos 120 jovens no programa, sendo que temos uma capacidade para 250. Todos eles já estão colocados no mercado de trabalho.
Vocês foram premiados no II Concurso de Atividade Empresarial Social no Brasil do NESsT. Qual a relação da INCORES com o NESsT Brasil?
Quando a gente estava implementando o Enter Jovem com recursos do governo americano, teve um concurso e a NESsT selecionou a gente. Desde então eles vêm prestando assistência para a gente e fazendo todo o planejamento, estudo de viabilidade, implantando os serviços que são viáveis, para a gente aumentar a sustentabilidade da instituição. Antes a gente dependia de um financiador para desenvolver o nosso projeto. Mas nós temos um serviço que é do interesse de várias empresas, que já nos apóiam. O NESsT ajudou a estruturar isso. Nós estamos agora no período de incubação, que é justamente de iniciar todas as ações que foram planejadas e definidas dentro do plano de negócios, e vamos continuar a receber esse apoio ao longo dos próximos três anos.
Quais são os maiores desafios para a formação e colocação de jovens em vulnerabilidade sócio-econômica no mercado formal de trabalho?
A primeira dificuldade é as empresas estarem conscientes dessa responsabilidade social e desse papel, porque geralmente a gente atribui ao governo ou ao próprio individuo. A segunda é o próprio nível de escolaridade dos jovens, porque às vezes nós temos que fazer uma formação em paralelo para que ele possa acompanhar o processo de qualificação. A carência do ensino público é muito grande, então a gente vê situações que nem acredita que estejam acontecendo, como tiroteio em escolas, professores que não dão aula, e isso tudo causa uma defasagem muito grande para os jovens. Como muitos deles não têm acesso ou referências para saber como é possível mudar isso ou entrar no mercado formal de trabalho, muitos acabam indo para formas ilícitas de trabalho, mercado informal, entre outras opções que vão impactar a sociedade como um todo.
Qual a importância desse trabalho de capacitação dos jovens em situação de risco?
Hoje temos a maior parcela de população jovem que já existiu, então se a gente não conseguir que eles ingressem no mercado formal de trabalho, estaremos deixando eles à margem do sistema, sem opções. Para a sociedade, isso tem um peso muito grande. Portanto, esse trabalho é uma forma de reduzir a criminalidade e criar opções para esse jovens. Muitos dos que participam do programa já cursam faculdade, até custeando a mensalidade e os outros custos, como transporte, alimentação, livros, etc. Hoje, a educação está muito fora do foco, as metodologias estão atrasadas, não interessam aos jovens, não tem um link com o mercado de trabalho, então eles pensam "pra quê eu vou estudar se vou continuar desempregado?".
Essa ponte entre a educação e o mercado de trabalho, que dará referências para esses jovens, é importante porque você cria uma opção e ele pode escolher por um caminho "certo". Já tivemos alunos envolvidos com tráfico de drogas e que pediam "por favor, deixe eu ficar porque é minha única opção de sair". São jovens que nunca saíram de suas comunidade, que, morando em Salvador, nunca visitaram o Pelourinho, nunca estiveram em uma delicatessen. Isso impacta a forma como ele vê a sociedade, que não é só crime, violência, existem coisas boas e ele é capaz de fazer a diferença na vida dele e na de outras pessoas.
Você tem a intenção de expandir a atuação de vocês no Brasil?
Temos sim. Por isso estamos buscando apoio em São Paulo e já temos interessados em levar nossas ações para Pernambuco e Sergipe.
Fonte: EcoDesenvolvimento.org








